segunda-feira, 21 de março de 2011

O Sol e a Lua

      Já passavam das 6:00 hs da manhã e a chuva fina lavava a poeira levantada na noite passada, pelo ritual da maturidade. Ao chegarem aos doze anos, todos os indiozinhos da tribo, precisavam passar pelo ritual da fogueira, que mais na frente, traremos para este livro. Tinha sido uma noite daquelas. Uma festa. Muita cantoria, comida a vontade e dança, muita dança. A alegria fluía no semblante de todos, adultos, crianças e os velhos da tribo. A experiência dos velhos anciões sempre foi valorizada entre os Tupis. Havia respeito e admiração por eles e as crianças sentiam prazer em ouvir suas fantásticas historias de guerra e paz, natureza, animais mágicos e a força invisível de Deus. As mães índias prepararam bem seus curumins para aquela tão esperada noite, pois daquele dia em diante, passariam a ser guerreiros de apoio aos caçadores da tribo. Auxiliares de confiança dos mais experientes e porque não, guerreirinhos também.
       A chuva fina que insistia em cair como num manto de luz na manhã da selva verde e virgem, longe da civilização urbana, pois ainda não conheci histórias de homens mais civilizados do que os índios Tupis, verdadeiros guardiões da verdade, honestidade, disciplina, respeito e amor aos seres vivos, todos os seres viventes da terra e do espírito. Então ainda examino o que verdadeiramente é ser civilizado. O que é ser evoluído. As gotículas da chuva cobriam as folhas das árvores e os passarinhos se escondiam sob as imbaúbas, pelas folhas largas que possui. A floresta estava num silêncio só. Não se ouvia nem um só ruído, nada além da água caindo e o soar de uma leve brisa que penteava as palhas das palmeiras e as folhas das sororocas. Uma beleza de se admirar, mais uma fotografia do álbum de Deus, uma tela tão perfeita, que nem mesmo Da Vinci poderia imaginar e pintar, coisas dos encantos da natureza.
      Aram observava aquele momento ímpar que Tupã estava proporcionando para ele. E olhava cada centímetro da imagem, as ocas fechadas por causa do frio, as brasas da fogueira ainda enfumaçada, as galináceas se acordando e cuidando das crias, as palhas balançando como que num balé celestial, a chuva que agora mais parecia com uma garoa fina, a água escorrendo pelos troncos das árvores e pelos regos que desenhavam pelo chão da ocara formas abstratas onde Aram viajava pela imaginação formando imagens com sentido para aquele dia e os tímidos sons que se iniciavam pela manhã no despertar da floresta.
   As primeiras índias começavam a aparecer nas entradas das ocas. Se espreguiçavam e faziam seus agradecimentos por mais aquele dia. Faziam individualmente a saudação ao Sol e sussurravam palavras mágicas que garantiam um dia de fartura e alegrias, onde teriam seus filhos guarnecidos dos perigos e seus maridos, guerreiros Tupis, vitoriosos para poderem suprir suas famílias com saúde e garantir a segurança da tribo. Pediam ao Sol saúde, paz e prosperidade além de força e coragem para trabalhar, dando aos curumins da tribo o exemplo que todo o pai e mãe deve dar aos seus filhos. Para os Tupis o exemplo dos pais e dos mais velhos da tribo era o maior tesouro que poderiam dar as crianças da tribo.         Quando havia fogueira e sempre havia fogueira, todos sentavam-se ao redor e entre um assado e outro, ouviam as histórias mais fantásticas dos velhos. Batalhas e contos espirituais, vitórias e ensinos Divinos, onde os exemplos eram fortalecidos em suas memórias e cresciam se fortalecendo cada vez mais no propósito de honestidade, verdade e simplicidade. E durante as narrações das histórias, os olhinhos dos curumins brilhavam  e a imaginação viajava em planos infinitos de consciência e seus espíritos se deslocavam e entravam nas histórias se encarnando como personagens reais, assim as noites na tribo não se repetiam e todos eram felizes e prósperos, num crescimento imensurável de amor e união.
     A fumaça das brasas já começava a se reerguerem com as mexidas das índias que iniciavam os preparativos do primeiro alimento do dia. Tapioca, beijus, dentre outras guloseimas para o desjejum dos meninos e dos outros, também já estavam sendo preparados pelas dedicadas mães Tupis. Aram tudo observava em silêncio e atenção, estudando o desenho que o dia estava lhe proporcionando e ele sabia observar as coisas de Deus. E observava com carinho. Carinho de pai.
     Tantas foram as vezes que Aram em seus agradecimentos à Deus, lembrou em suas preces daqueles pequenos herdeiros da cultura Tupi, pedindo prosperidade, saúde e felicidade aos seus meninos e meninas, as suas famílias, aos seus guerreiros, fartura para a tribo e acima de tudo, paz e harmonia para todos. E naquela manhã, ele sentia que algo de especial ia acontecer... e observou... observou... se concentrou e sentindo tocar em sua face os primeiros raios de Sol, sorriu.
      Todas as atividades daquele dia, aconteceram de uma forma diferente, não foi como nos outros dias, tudo deu certo, até mesmo a panema que insistia em perseguir o melhor de seus caçadores, deu uma trégua e ele trouxe muita caça, e cantaram e dançaram por isso também. O dia foi só alegria. E a noite chegou...
      O dia ainda não tinha acabado e a Lua surgiu exuberante, redonda como um olho de tucunaré mas bem maior. Naquela noite Aram não se continha em alegria, uma energia circulava seu corpo e em especial seu coração de uma maneira diferente, sentia um amor tão grande que parecia que flutuava. E a Lua brilhava radiante.
       Quando Aram chegou ao centro da ocara, já o estavam esperando. A fogueira acesa e os finos gravetos de Angelim e pau de corda que são ótimos para manter o calor por terem cerne denso e por isso não precisar de tanta lenha, pois os Tupis faziam o possível para cuidar da mata como se cuida da mãe. Toda a tribo reunida. Com pequenos espetos feito de gravetos de itaúba e aroeira assavam os lambaris pescados durante o dia. As crianças esquentavam umas frutinhas vermelhas de sabor adocicado e azedo que depois de aquecidas ficavam deliciosas. Os curumins adoravam e ficavam com as bocas borradas pela tinta que se desprendia pelo calor do fogo. Os índios adultos se acomodavam no chão junto de suas companheiras, diferente de outras tribos, os Tupis não discriminavam as mulheres e compartilhavam os momentos juntos. Os guerreiros podiam ter até três mulheres desde que pudesse sustentá-las e que fosse sempre fiel às todas. Dormiam juntos na mesma oca que continha uma divisão em forma de biombo para separar os pais das crianças, preservando assim suas memórias infantis quanto ao relacionamento de homem e mulher. Então lá estavam  as famílias reunidas em volta da pequena fogueira que as vezes perdia em luminosidade para a intensidade da luz da Lua, aguardando Aram chegar e trazer seus ensinos para todos deleitarem-se.
     Aram chegou, sentou-se a com um semblante amoroso balançou positivamente a cabeça saudando a todos. E todos sentiram a energia daquele momento e um silêncio duradouro reinou. Alguns minutos passaram-se e então  falou:
      A Luz do pai Sol brilha por todo o dia e a mãe Lua o acompanha refletindo sua Luz pra todos nós. Ele nunca esquece de nós. Tem dia de chuva que não o vemos, tem dia de nevoeiro que não o vemos, tem a noite em que não o vemos mas ele está sempre lá nos observando e cuidando de nós. Firme em seu lugar, nos dando equilíbrio aqui na terra, independente de estarmos ou não pensando  nele, ele está ligado em nós. Saímos para a caça e ele clareia as matas pra nós podermos ver os animais, saímos pra pescar e com a claridade conseguimos mirar e cravar nossas lanças pra  poder saciar a fome. Plantamos a maniva que cresce todo dia um pouquinho, brotando e florescendo.         Quando a gente precisa lá está a mandioca madura pra gente ralar pra fazer beiju, farinha e a  bebida sagrada dos espíritos, o caá. Quando é noite e o pai está cuidando dos outros nossos irmãos, nossa mãe Lua carinhosa e cuidadosa, vem e nos cobre com seu manto de luz em forma de sereno na madrugada. Estamos sempre sendo olhados por nossos Pais. O que precisamos é estar ligados neles para aumentar a claridade em nosso caminho e manter-nos seguros, livres das jaguatiricas, das cascavéis e das tucandeiras pra só sentirmos dor quando for necessário, não por causa de descuido. Não estamos aqui nessa mata para sofrer mais do que o necessário, por isso precisamos saber por onde andamos e o que estamos fazendo com nossos pensamentos. Na dúvida, pensemos no nosso pai e na nossa mãe que estão sempre nos guiando pelos caminhos da terra.
       Quando nosso chão já havia sido criado, Tupã começou a semear por toda a parte do planeta, sementes de tudo o que poderíamos precisar. Mas ainda não havia luz e nem água que mais na frente formaria os mares e os rios e com o futuro movimento das marés traria os ventos e assim a vida teria seu início. Depois de ter colocado no solo de tudo um pouco, Tupã enviou pra cá o grande Porumã, um espírito em forma humana, o primeiro homem na terra. Veio reinar sobre o planeta e lhe foi dado a missão de iniciar toda a geração. Quando já havia crescido as matas e os peixes do mar já haviam se multiplicado, Porumã sentou-se sobre uma grande pedra próximo a uma fonte de água cristalina, contemplou a beleza da natureza daquele lugar e sentiu que ainda faltava algo para continuar o movimento da criação. Concentrou-se no Pai, fechou os olhos por alguns instantes e quando os abriu, percebeu um movimento na vegetação que ficava na margem oposta do pequeno lago que se formava naquela fonte. Dali saíram duas pequenas corsas, que hoje conhecemos como veados e outros pequenos animais foram aparecendo até que após alguns minutos já haviam dezenas de animais de várias espécies bebendo daquela fonte.
      Mas de onde surgiram aqueles animais, meus pequenos curumins? Perguntou Aram aos pequenos indiozinhos que o ouviam com tanta atenção que seus pequenos olhos negros nem piscavam. Um silêncio perdurou por um tempo.... E Aram se levantou e falou: _ Tupã nos enviou para povoar a terra em forma de pequenos animais até que houvessem seres humanos para abrigar nossos espíritos.
      Mas todos os animais tem espírito Aram? Quis saber um adolescente recém aprovado na prova de coragem com as tucandeiras.
       Essa é uma outra história. Inteligentemente disse Aram, deixando a todos com uma "pulguinha atrás da orelha" de querer saber mais a respeito das coisas de Deus. _ Conto numa outra Lua com a fogueira mais forte. Aram sabia como prender a atenção de todos.

Semelhança ou perfeição

     O dia tinha sido bem movimentado e todos estavam cansados, até mesmo as crianças haviam se entregue ao soninho da tarde, uma sesta tranqüila com o cantar dos passarinhos e o leve som que se ouvia da cachoeira que ficava a uns quinhentos metros de distância, uma tranqüilidade só.
       Na tribo tupi, havia um índio muito inteligente, ou melhor, todos os Tupis eram inteligentes mas esse era diferente, uma pessoa bem criativa, tinha uma visão espacial fantástica, que sobressaia aos outros. Havia criado um tanto de ferramentas e utensílios que facilitava bem a vida da tribo. Inventou também os primeiros instrumentos musicais dos Tupis, as tímbias, feitas de cabaça e bambú, lembravam um berimbau mas tinha um som mais agudo e como não havia arame ele usava crina do rabo do cavalo, igual é feito hoje com os violinos e rabecas além de desenvolver algumas engenhocas. Mais parecia um "professor pardal" da floresta. Era muito admirado pelos outros pois resolvia os problemas do dia-a-dia e também era um exímio construtor de ocas gigantes. Suas estruturas desafiavam a gravidade não utilizando mastros centrais, dando assim mais mobilidade e espaço aos interiores das instalações. Sua oca tinha um sistema de iluminação natural direcionada conforme a luz do dia, além de ter instalação de água feita com bambus e acreditem, o primeiro chuveiro que se tem notícia. Seu nome? Pois sim, todos o conheciam por Jorchê. Até seu nome era diferente, não tinha nada a ver com os nomes indígenas, acredita-se que ele já tinha tido contato com o homem branco e teria adotado esse nome de algum deles. Jorchê não era um Tupi de verdade, havia aparecido na tribo ainda adolescente e não lembrava de onde viera e foi adotado pelos Tupis, sendo considerado por todos como um verdadeiro irmão, era muito querido por todos. Um bom índio.
   A noite chegou e agora mais descansados, foram se banhar no rio para despertar o corpo e o espírito.
    Já estava tudo preparado para o banquete sob a luz do luar. A fogueira no ponto de acender e os curumins se colocando nos melhores lugares, a melhor localização durante a fogueira era descobrir onde Aram se sentaria pois ele falava baixo e o barulho dos estalar dos gravetos queimando, abafava um pouco suas palavras e as vezes não dava pra entender uma ou outra parte de suas histórias. Às vezes ele falava baixo de propósito, para todos silenciarem e sentirem o som da natureza. E não é que a natureza tem som mesmo? Tem momento que nem mesmo os grilos cantam e nesse momento podemos ouvir o som de Deus. E ele brincava com a gente. Na tribo, durante o dia, Aram era muito brincalhão com os curumins. Por vezes se escondia sobre as árvores e chamava-os pelo nome e ninguém sabia de onde vinha aquele chamado, ele tinha uma técnica com os sons que parecia que estava em outro lugar e ninguém o encontrava.
      Os visitantes começavam a se aproximar e se instalar ao chão ao redor da fogueira. Tinha mais de ciquenta pessoas sentadas e mais um tanto em pé esfregando as mãos para aquece-se  na fria noite de lua cheia no centro da Floresta Amazônica. As mulheres se sentavam já com seus bebês no colo bem agasalhados e Aram chegou e sentou-se. Ficou em silêncio durante uns quinze minutos e com os olhos fechados, iniciou um canto xamânico e todos silenciaram e se concentraram. Ele se levantou, abriu os olhos e observou a todos um a um, após abriu um sorriso com a boca fechada e saudou a todos inclinando-se para frente e levantando as mãos para o céu.
        Em minha casa sempre há um lugar para um bom amigo e todos são meus amigos. Quando Tupã nos criou, nos fez por natureza irmãos e nossa casa não pode estar fechada para receber um irmão. É isso que ele quer, que sejamos amigos e próximos, trabalhando nossa alma para  não aceitarmos com frieza o sofrimento do outro. Quando vemos um irmão cair num buraco na mata, a gente para nossa caminhada e socorre o outro. Quando um amigo está com panema e não consegue caça ou pesca, a gente divide a nossa e amanhã ele pode caçar e também dividir com a gente. Isso é o que nosso Pai quer de nós, União, nesse mundo fica mais fácil da gente caminhar junto com os outros pois de mãos dadas a gente se fortalece e supera qualquer dificuldade. Os animais na floresta também são assim, tem peixes por exemplo que são pequenos mas quando vêem um outro maior eles se juntam em milhares e ficam tão juntinhos que quem olha, parece um peixão e espanta o outro maior. As abelhas são parecido, quando elas atacam uma presa, também são em bando, um enxame de abelhas pode matar um elefante. Então meus amigos todo o momento é bom para praticarmos essas coisas.
         Certa vez Tupã na sua grandiosa e imensurável sabedoria, criou Purumã, que como já ensinei foi o primeiro ser vivente da terra. E qual era a forma dele? Porumã tinha uma forma única, diferente de tudo o que haveria de ser criado aqui nesse planeta. Deus o criou com alguma semelhança com sua essência Divina, não criou com sua perfeição para que o homem pudesse se desenvolver e buscar ser melhor a cada dia e se viesse perfeito qual seria o propósito da vida? Então ele criou com o que tinha na terra, que era a própria terra, uma espécie de boneco com o formato de uma pessoa e colocou dentro dele um tanto de sua luz que pela consciência, vem aos poucos se aproximando dessa luz e graduando sua ligação com Deus. Depois colocou esse boneco em pé e com um sopro Divino deu-lhe vida, e Porumã iniciou sua caminhada pelo planeta. Depois eu contarei como chegou uma mulher para ele. Nesse dia Aram ensinou como iniciou toda a nossa história.
            E a festança continuou pela noite a dentro.....


..... e Porumã caminhou pela terra durante muito tempo, aproveitando as maravilhas do Criador...

Contando estrelas

_Papai, papai, o que são aquelas luzes brilhantes que ficam lá no alto durante a noite? Perguntou um indiozinho ao seu pai. Pensou por um pouco enquanto balançava a rede feita de cipó e palha de palmeira que ele mesmo tecera. Era costume daquele povo, após ouvirem as histórias de Aram, balangarem aqueles pequenos que tinham dificuldade de pegar no sono, alguns nem dormiam depois de escutar algumas histórias, Aram contava com tantos detalhes que a adrenalina entrava pelas veias e transportava-os para dimensões inexplicáveis e quando ele concluía os contos, alguns ainda estavam voltando da viagem espiritual e até que se tranqüilizassem, às vezes demorava algumas horas e a madrugada chegava com os pequeninos deitados nos braços de seus pais.
__ Aquelas luzes são representações de nós mesmos, meu filho. Quando um guerreiro ou uma mãe bondosa e zelosa por seu filho é chamada por Tupã, dependendo de como ele ou ela se comportou aqui na tribo, recebe uma porção de luz cem vezes maior do que a que ele ou ela tinha aqui na terra, então Tupã olha pra gente, coloca mais luz e dependendo do brilho que reluzir na hora, Ele coloca mais ou menos perto dele, aí é que a gente vê aquelas luzes que também tem o nome de estrela brilhando mais ou menos. As que estão mais próximo de Tupã brilha mais e as que estão mais distantes brilham menos. Entendeu?
__Mais ou menos. Mas se Tupã, que é o nosso criador como Aram ensinou, é o nosso pai, então por que ele fica com uns filhos mais ou menos distantes dele? Heim? Ué, os que mais precisam de luz é que ficam mais longe? Como é que pode ser assim pai? Explica pra mim!
__Você está muito perguntador hoje guri, mas vamos raciocinar juntos. 
__Quem é Tupã? 
__O Sol? 
__ Isso mesmo. E não existe luz sem o Sol, certo? 
__Hã hã... 
__ Então, pra aquilo que está precisando de mais luz, eu preciso de levar pra mais perto do Sol, certo? 
__ Hummm.... já to entendendo.
__Pra quem precisa de mais luz, nós precisamos colocar mais perto de Tupã, pois para os que já conseguiram fortalecer sua própria luz, já podem ficar um pouco mais distantes do Sol por que já se firmaram e podem abrir espaço para ou que ainda não chegaram nesse grau se aproximar e receber direto da fonte. Assim meu querido aquelas estrelas que vemos com menos luz lá no alto, são aquelas que já têm uma intensidade própria e aquelas que estão mais brilhantes são as que estão precisando de mais luz e por isso estão mais próximas de Tupã. É claro que também tem algumas exceções pois alguns de nós, já conseguiu chegar em um ponto da caminhada espiritual, que já está podendo auxiliar ao grande Tupã e já encontrou uma condição de irradiar luz para os outros, e esses poucos espíritos de luz também tem um grande foco fixado no firmamento para sevir de guia para os que vem chegando, poderem se orientar no caminho de volta pra casa do Pai eterno.
__Mas como é que você sabe disso papai?
__Já estive mais vezes do que você em volta da fogueira ouvindo o sábio Aram.
__Mas pai, um dia todos nós vamos virar estrela?
__Boa pergunta para ser feita ao redor da fogueira.... Você hoje ta que ta heim! Meu filho, já ta na hora de dormir, ta tarde e amanhã é dia de caça e não quero acordar muito tarde pois já está combinado de sairmos bem cedinho pra pegar capivara e você sabe que capivara a gente só pega na hora que ela vem beber água, e que hora ela bebe água?
__Bem cedinho papai.
__ Então.... 
__Boa noite!
__Boa noite.
E enquanto o pequeno começava a bocejar e cerrar os olhinhos, o pai continuava a balançar a rede e fitar as estrelas cintilantes do céu. E pensava o que Tupã reserva pra nós que estamos por aqui fazendo nossa parte, do jeito de cada um. Uns fazem as coisas de um jeito e pensa que está certo, o outro faz completamente diferente e também pensa que está certo e afinal, quem está certo? Ou será que estamos todos certos pois agimos conforme nossas inspirações, nossa intuição e nossa consciência. Olhava as estrelas e via algumas cadentes, outras cintilando e trocando de cor, tantas coisas misteriosas que ficava imaginando o que passa na cabeça de Tupã. Também pegou no sono.

Dia das crianças dos Tupis.

         Chegou o dia mais esperado pelos curumins da tribo - o dia da Içá.  Existe uma espécie de formiga que faz a festa da criançada na floresta, quando chega meados de setembro, isso no interior da floresta fechada, em que os formigueiros não comportam em seu interior tanta Içá, uma turma de Formigas Rainhas, que se desenvolvem para a procriação da espécie. Então quando chega essa época, saem dos ninhos e iniciam uma revoada pelo ar em busca de acasalamento. É onde começa a festa dos guerreirinhos Tupis.
         Antigamente esse dia era conhecido como o dia das crianças, que não tem nada a ver com o 12 de outubro de hoje, onde o dia realmente era da criança. Os mais velhos se organizavam nas vésperas para proporcionar brincadeiras, gincanas e muita diversão para a criançada. O esmero com os detalhes era algo ímpar. Até hoje não se sabe quem se divertia mais, se os indiozinhos ou os marmanjos que preparavam os jogos. Os preparativos aconteciam na semana que antecedia o evento e a diversão já iniciava ali. Normalmente quem encabeçava as frentes de trabalho eram os jovens  recém-saídos da infância e era quem mais se divertia durante a preparação.
         Essa equipe recebia todo o apoio dos adultos, pois duas coisas eram valorizadas entre os Tupis além do amor que eles tinham por todos da tribo - os velhos e as crianças - sabiam que todos já tinham sido crianças e um dia haveriam de ficar velhos. Sapiência Tupi que até hoje é difundida em alguns povos orientais. E assim todos se envolviam naquela energia tão forte para fazer acontecer aquele momento marcante na vida dos tupizinhos.
         Nos dias que antecediam o dia da Içá, Aram se recolhia em seus estudos espirituais e naquela semana era difícil encontrá-lo nos arredores da aldeia. Desconfia-se que ele se retirava para uma caverna que ficava bem distante da aldeia, umas 12 léguas até chegar ao vale que levava à base das montanhas, em um caminho secreto ele chegava na boca da caverna do Sol,  que num outro momento do livro trarei para o conhecimento de todos. Um lugar mágico repleto de cristais e pedras preciosas que até hoje não foi encontrado pelos exploradores, ela ainda está intacta e o único homem que pisou em seu interior foi Aram.
         As mulheres também já iniciavam um movimento para os preparativos da comilança da garotada e dos adultos também. __Não tem coisa mais gostosa do que Içá frita no óleo do Tucumã - dizia uma menina Tupi para a mãe - é gostoso demais mamãe! Coisa de Tupã mesmo! Uma das brincadeiras que se organizava estrategicamente nas primeiras horas do dia era a caça às Içás. Quando o Sol lançava seus primeiros raios diurnos, a terra começava a esquentar e os formigões saíam para seus primeiros vôos, era formiga "pra mais de metro". Tinha congestionamento no ar e não tem controlador de vôo que consiga organizar tamanho número de aeronaves, ou melhor de formigas no ar. E o mais incrível é que mesmo parecendo que elas tinham evoluções desordenadas, não havia colisão aérea, uma coisa incrível. Se fossemos fazer um desenho das curvas sinuosas que elas desenhavam no ares, daria um belo quadro abstrato composto de linhas cruzadas e aparentemente sem sentido, mas com uma aparente rota pré-traçada. Esquisito e inexplicavelmente, no final do dia, todas já haviam se copulado e cumprido sua inseta missão. Claro que estou falando daquelas que conseguiam se livrar dos puçás certeiros da molecada, pois essas virariam uma bela farofa de "bundinhas de Içás". As mães aguardavam ansiosas, com o óleo de tucumã bem quente, pelo fim da primeira brincadeira do dia pra iniciar o desjejum de toda a aldeia.
         Os grupos eram formados por  meninos e meninas e sempre liderados por um casal veterano da turma passada. Esses davam um jeito de envolver seu grupo de uma maneira tão intensa que eles se desdobravam e superavam todas as barreiras para se destacarem na pontuação do dia. Não é que tinha um prêmio ou coisa do gênero para os campeões, mas era algo que ficava na memória dos tupis, eles comentariam nas rodas de conversas durante um bom tempo e seria a melhor referência para a próxima turma. Os líderes eram chacoteados por alguns dias pela derrota e o vencedor lembrado como um bom líder e admirado pelos menores.
          As brincadeiras eram das mais variadas possíveis e começava com a caça às içás e pleno vôo pois içá no chão era tarefa dos pequeninos que ainda não davam conta de participarem das atividades. Aqueles com menos de dois anos pegavam uns bornais feito em palha seca e prendiam as içás caídas no chão e que por algum motivo não mais levantavam vôo. Algumas até ensaiavam uma nova decolagem onde na maioria das vezes culminava em espetaculares capotagens. Içá no chão era um prato cheio para os esquilos (assim eram chamados os curumins menores de dois anos). Também chamavam os pequenos que já tinha mais de dois anos e ainda não completaram dez de lobinhos (Algumas décadas mais tarde um cidadão de nome  Baden Power criaria a filosofia dos escoteiros onde as crianças são iniciadas como lobinhos - sabedoria Tupi).
         Já imaginaram uma corrida de tanajuras (Içás) com coco de tucumã amarrado nas costas? Tinha também uma espécie de esporte mais parecido com peteca, eles retiravam as asas da formiga e as amarrava com crina de cavalo ou até mesmo com fios de cabelos das índias caprichosas que mantinham longas madeixas e montavam umas bolinhas com cerca  de cincoenta formigas entorpecidas em uma solução feita com a seiva de um cipó, o mesmo utilizado na passagem dos guerreiros para a fase adulta feita com a luva de tucandeiras, aquilo mais parecia uma bola de tênis viva, as perninhas e as mandíbulas se mexiam vigorosamente e aquele movimento desconcentrado injetava adrenalina no sangue dos pequenos. Faziam uma grande roda e os que não cabiam no círculo ficava no meio dele e pronto, o líder jogava a bola de formigas para cima e aquele que deixasse cair estava fora e assim iam excluindo os menos corajosos e ágeis até que restasse apenas uma dupla. Esses dois finalistas disputavam uma espécie de linha de passe dando toques aéreos um para o outro, só que nesse estágio da brincadeira eles não podiam tocar a bolinha, que agora já tinha mais formiga morta que viva, com as mãos. Então quando a bolinha caía no chão tinham que pegar com a boca. Era uma algazarra quando aquelas crianças, com os braços amarrados pra trás tinham que se deitar ao chão e com a boca pegar a bolinha que ainda viva tentava se defender dando algumas ferroadas, as içás não tem veneno mais são da espécie das cortadeiras ou saúvas e possuem um belo par de lâminas eficientes no corte. Essa era a parte mais engraçada e esperada da brincadeira e que os protagonistas mais gostavam, pois demonstravam coragem e bom humor. Nesse momento os maiores e os velhos se agrupavam em torno da grande roda para rirem um pouco antes do almoço. Às vezes restavam um menino e uma menina, aí era mais engraçado ainda, principalmente quando a índia era mais corajosa ou sortuda que o índio que havia restado na disputa. E assim as brincadeiras  transcorriam por todo o dia. A coroação do dia ficava por conta dos jovens veteranos que ao redor da fogueira faziam muitas palhaçadas do tipo imitação de animais, contação dos acontecidos durante o dia, estórias inventadas com finais surpreendentes e engraçados e muita cantoria.
Os Tupis sabiam viver alegres.
Mesmo havendo fogueira, nessa noite não havia ensinos de Aram.

Quem elegemos?


                Tem hora que dá vontade da gente desistir de algumas coisas, tem momentos em que parece que algumas coisas não têm jeito ou a solução está bem distante ou nós estamos distantes da solução. Tá sujeito a baixar um desânimo ou mesmo um baixo astral ou até uma depressão por não termos a condição de vislumbramos uma solução a curto prazo em determinadas situações. E o que fazer?
                Entra governo e sai governo e algumas promessas não são cumpridas, a prioridade é de interesses pessoais e o coletivo tem ficado em segundo plano, outras vezes tem ficado de fora mesmo, caído no esquecimento.  E o que fazer?
                Não sou daqueles que colocam a culpa no governo em tudo, não tenho o costume de responsabilizar os governantes do nosso país pelas mazelas da vida, pois entendo que as coisas vem pelo empenho e desempenho de cada um, por um processo de plantio e colheita, dentro de um desígnio de Deus, mas não é sempre bem assim. Quando uma pessoa se candidata a liderar um povo, tem que ser fiel aos seus compromissos de campanha, afinal de contas só fora eleito pelas promessas feitas e os eleitores ficam aguardando seu cumprimento. Aqui vou escrever a respeito de uma dessas promessas. O fim das drogas.
                Será que tem alguém nesse mundo que imagina que as drogas são coisas de Deus? Será? Mas será mesmo? Não posso crer numa coisa dessas. Não é possível que alguém pense sinceramente que algo que tem o poder de destruir uma vida venha do Criador. Não consigo nem mesmo imaginar tal coisa. Então partindo do princípio de que fomos criados para evoluir,  um dia, como filho pródigo, voltaremos puros pra casa do Pai. Penso que esse raciocínio seja unânime em todas as religiões e também pregamos, enquanto religiosos a boa conduta, os bons costumes, a libertação dos vícios dentre outras virtudes.
                E pergunto o que realmente estamos fazendo para reverter essa situação. Estamos sendo prático nas ideias? Estamos pelo menos tendo alguma ideia? Ou estamos deixando nas mãos dos políticos ou Ong’s a elaboração de alguma solução milagrosa para o problema.
                Me dá uma tristeza quando vejo um menino de dez anos ou mais ou menos, sujo, enrolado em uma coberta, com as mãos encardidas e queimadas pela ponta de um cigarro ou pelo aquecer de um cachimbo de crack. Regresso e tento imaginar o momento do parto daquela criança, as dores e sensações que a mãe passou durante a gestação. O momento do nascimento quando nosso Pai enviou um espírito para ocupar aquele pequeno e indefeso corpo. Será que a mãe pensou, mesmo que inconsciente,  algum futuro para aquele filho? Será que vislumbrou uma saída para uma vida melhor pelas mãos de seu filho? E agora?
                Bem que temos nossos governantes para resolver essas questões. Pessoas gabaritadas e preparadas para esses desafios, com experiência inquestionável e certamente competentes para a resolução de questões tão simples quanto cuidar de crianças.
                Enquanto tudo isso acontece todos os dias, o dia todo, sem trégua, pois o vício é compulsivo e o abastecimento precisa ser permanente, nossos governantes estão em seus gabinetes, gastando fábulas de dinheiro, calculando como vão fazer para que as contas batam certinhas e os valores sejam zerados na prestação de contas. São tantos valores, despesas com pessoal, despesas com viagens de avião, combustível, alimentação e bla, bla, bla.....
                Ai meu Deus, quanta hipocrisia, quanta falcatrua, quanta falta de respeito, quanta irresponsabilidade. Quando penso no que acontece durante os jantares de alguns políticos me dá vontade de deixar isso tudo de lado e esquecer, cuidar de minha vida e pronto. Mas e minha consciência, como ficam meus princípios? É certo ser mais um dos coniventes dessa farra? Não. Não serei mais um dos indiferentes. Mas fico a pensar o quanto seria proveitoso utilizar meu mandato de deputado, senador ou mesmo presidente para fazer a diferença, e tornar-me alguém que fizera algo de especial. A pessoa que deu o início para a vitória dessa batalha. Sem esperar reconhecimento de ninguém, apenas me sentir realmente útil em meu mandato, mostrar aos meus eleitores, que não votaram em vão.  Trabalhar todos os dias da semana, se bem entendo, é pra todo o funcionário fazer. Cumprir horário também é uma exigência que precisa ser seguida por todos. Mas parece que eles são os patrões! Afinal de contas são eles quem criam as lei né? Então deveriam ser os primeiros a cumpri-las, certo?
                Mas convenhamos que a culpa não seja toda deles, pensemos direitinho e reflitamos que elegemos um palhaço de circo para ser nosso representante, um cantor, um pugilista, um jogador de futebol, um estilista, um pagodeiro, uma dançarina, um corrupto comprovado em outros mandatos, e tantas outras pessoas que não foram preparadas para o exercício dessa função. Não que esses profissionais não sejam elegíveis, mas depois não temos o direito de cobrar deles por aquilo que eles não estavam preparados. Afinal de contas: “se você não sabe o que um deputado faz, vote em mim que depois te conto, pois também não sei”, esse foi o slogan de campanha de um desses profissionais. Então relaxemos e aguardemos os resultados.
                Mas  e quanto a nossa juventude que está se perdendo pelas vielas das drogas? Bem, também não tenho uma solução milagrosa para esse mal, no entanto estou pensando no assunto e procurando fazer minha parte. Um dia com certeza descobrirei e contarei pra eles, já que parece que eles nem pensam no assunto. assunto.

Indiferença

     Parei meu carro importado, último modelo, completo e blindado no semáforo e aquele minuto foi o minuto mais longo que até hoje vivi. Parecia que tudo acontecia em câmera lenta, devagarinho e eu podia observar cada cena que acontecia ao redor daquele cruzamento de trânsito da radial leste. Era um cruzamento de dois tempos onde havia o momento dos veículos e dos pedestres e isso foi fundamental para poder observar o quanto somos preconceituosos com nossos semelhantes. 
     O sinal ficou vermelho pra quem vinha no sentido norte-sul e leste-oeste, o cruzamento parou para os veículos, hora dos pedestres poderem caminhar livremente por entre os carros e assim seguirem seus caminhos. Cada um com um semblante ímpar, pude observar alguns deles enquanto regulava o ar condicionado do meu confortável carro para vinte e um graus célcius, apesar de meu poderoso veículo de vinte e quatro válvulas, turbo diesel ser importado, todo o seu painel de controle, que mais parecia o painel de um avião, era em português. 
     Ouvia uma música clássica bem baixinho, pois sempre gostei de ouvir música em baixo volume para assim aumentar a concentração no que estou fazendo, no momento dirigindo e observei. Parecia que tudo acontecia em câmera lenta mesmo, o caminhar das pessoas, o sorriso de alguns, a gritaria silenciosa de ambulantes que aproveitavam o momento para vender algumas bugigangas, os pedintes. O que me faz diferente daqueles irmãos? Pensei. Meu carrão, respondi pra mim mesmo. 
     Bem, também tem minha conta corrente, meu bom emprego, minhas roupas impecavelmente vincadas pelas passadeiras da lavanderia, minha bela família e meus filhos estudando no exterior, tudo isso me torna melhor do que muitos deles... Diferente sim, mas, melhor? Bateram no vidro lateral direito do carro. _ 
       Moço! Quer comprar drop’s? É só um Real! Assustei, pois estava concentrado em observar o vai-e-vem das pessoas. Acenei negativamente com a cabeça. Continuei com meus questionamentos e cheguei a me emocionar quando direcionei o olhar para um deficiente que carregava nas mãos diversos produtos; Tinha doces, panos-de-prato, sacolas de napa, além de alguns adornos de Natal, mais parecia um Centro Comercial ambulante. O Cidadão era um batalhador, tinha uma deficiência nas pernas, ou seria na coluna, que o fazia andar meio agachado, pois, as pernas faziam uma espécie de círculo e não se juntavam, então ele parecia um cowboy ou um motoqueiro que acabara de saltar da motocicleta e não retornara as pernas para o lugar. E ainda assim era o mais articulado dos vendedores daquele cruzamento, conseguia “empurrar” suas bugigangas para os motoristas com alguma facilidade, não sei se pela sensibilização das pessoas ou pelo talento de vendedor que possuía. 
     Enquanto isso, no outro semáforo, um menino de mais ou menos oito anos de idade esgueirava-se pelos veículos pedindo doações de natal com sua caixinha revestida em papel de presente. Tinha uma figura franzina e esguia, o que mexia com as pessoas que com o espírito de Natal vivo em seus corações, esticavam seus braços ofertando algumas moedas para ele que com um largo sorriso de agradecimento, retribuía a oferta com uma gratidão verdadeira estampada em seu semblante infantil. E percebia em alguns motoristas uma certa indiferença para com aquela cena. Olhares difusos. A irritabilidade de alguns com as batidinhas no vidro do carro, a insensibilidade às mãos estendidas implorando caridade. A falta de amor ao próximo. Me enquadrei naquele rol de indiferentes, pois, o que estava fazendo que me tornasse diferente deles? 
     O que me tornava melhor que os demais? Pensei, pensei e cheguei a conclusão de que sou mais um dos indiferentes. Continuo andando de carro importado, blindado, com os vidros fechados. Não faço nada para melhorar a vida dos outros. Pra falar a verdade não sei nada da vida dos outros e nem tão pouco estou fazendo absolutamente algo para melhorá-las. Tudo o que tenho feito, tão somente favorece aos meus interesses e dos meus próximos, mais próximos. É fácil delegar a responsabilidade pelas mazelas da vida aos governantes, excluindo-me totalmente desse sistema frio que segue pelas paralelas materiais, onde números estatísticos comandam as ações governamentais e o sentir é engessado sem lugar. 
     Num flash de memória, alguns momentos de minha infância percorreram os filetes ressecados pelo tempo de minha história. Minha mãe raspando com uma colher de metal a meia-banda de uma maçã que ela intercalava entre mim e meu irmão mais novo. Um momento de lembrança de minha infância que brotou naquele instante no sinaleiro. Não sei porque me veio tão vivo no pensamento aquele momento que já acontecera a tantas décadas. Forcei mais um pouco o olhar e senti a relação da simplicidade, do descomplicar da vida, naquelas vidas que desfilavam pela frente do meu luxuoso carro. Percebi o quanto frio e fútil é a indiferença natural das pessoas que, por vezes, encontram o sucesso pessoal e profissional independente dos meios, justificando-os pelos fins. 
     Um choque na memória. Um despertar pra vida enquanto ainda a tem. Uma nova maneira de enxergar meu semelhante. Um renascer verdadeiro. _ E aí patrão vai uma rosa pra patroa? Me interrompeu um senhor de meia idade que com um toque duplo no vidro escurecido pela película fumê, me trouxe de minha introspecção. Com um toque no controle elétrico, abri o vidro. Dessa vez abri totalmente, diferente das anteriores que no máximo abaixava o suficiente para receber um encarte das lojas de departamentos. Abri o vidro até em baixo e olhei para o semblante queimado do sol daquele irmão. Tentei saber, em seu olhar, sua história, seus anseios, suas necessidades e seus pensamentos mas apenas entendi que cada rosa custava um Real e que comprando três só pagaria duas.  
     É três por dois patrão! Comprei todas as rosas que trazia nas mãos. Chamei o vendedor de pirulitos e drop’s e também arrematei as duas caixas que ele vendia. Assim fiz com o Shopping Center ambulante e adquiri todas suas bugigangas e em poucos minutos meu carro estava abarrotados de compras feitas naquele sinal. Não sei o que me deu, só sei que a muito tempo não me sentia tão feliz. O sinal abriu e engatei a primeira marcha e saí. Abaixei todos os vidros do meu carrão, desliguei o ar condicionado, tirei o CD de músicas clássicas e coloquei um de MPB, aumentei o som e me atrevi a cantar uma das músicas. 
     Dirigi até um albergue da prefeitura e doei todas aquelas aquisições pra eles. Outro momento de alegria no mesmo dia. Já eram mais de cinco horas da tarde e estava na hora de regressar pra minha casa. Outro semáforo se aproximava. _ Que carrão fera doutor! Me exclamou um guri de uns doze anos com uma caixinha de Natal nas mãos. _
    _Tem umas moedas pra minha caixinha? Perguntou com um sorriso simpático estampado na face. _ Tenho não moleque! Respondi com outro sorriso no rosto.
      Mas tenho uma notas, serve? _ 
     Melhor ainda, me respondeu o sorridente menino. Tinha passado no banco e retirado um dinheiro para as despesas da semana.Coloquei tudo naquela caixinha e senti no coração que estava fazendo a diferença pro Natal de uma família. Daquele dia em diante mudei meu posicionamento quanto as coisas da vida. Percebi o quanto posso fazer pelos meus semelhantes e que depende apenas de mim. Não importa o que fazem os outros ou os governantes, preciso colocar água em meu bico e auxiliar no apagar do incêndio na floresta, fazendo minha parte.do incêndio da floresta fazendo minha parte.

Assim dá pra entender.

Já martelei um tanto minha memória em busca de uma explicação que me facilitasse em como expressar pra uma pessoa com menos orientação espiritual o fato de umas terem diferentes graus de memória ou mesmo uma condição melhor que a outra e não encontrei. Então desenvolvi de uma maneira mais didática, como isso acontece.
Quando fomos criados por Deus, lá nos inícios dos tempos, saímos da fôrma do mesmo jeito, todos iguais, assim entendo a Justiça Divina, pois fomos criados sem culpa, sem pedir e portanto sem dever nada. Como temos um pai justo, com certeza não inventou a diferença entre seus filhos. Criados sua imagem e semelhança. Todos.
Mas como somos tão diferentes? Esse é o dilema eterno da humanidade que revelarei aqui nesse texto de uma vez por todas. Isso mesmo, resolvi entregar esse segredo pra todos e apartir de hoje, poderemos até ter alguma dúvida sobre qualquer assunto mas a respeito desse não.
Quando um anjo recebe ordens para encarnar e vir habitar o planeta terra, ele recebe de Deus um Fusquinha, isso mesmo, ele recebe um fusquinha básico, sem ar condicionado, sem vidros elétricos, sem direção hidráulica enfim, sem nenhum acessório que ofereça mais conforto do que o necessário para caminhar por esse mundão. Os únicos acessórios que o nosso fusquinha já tem de série são dois GPS's e uma Tecla "S" que vem fixados no painél do fusca. Todos nós recebemos um fusquinha igualzinho quando encarna pela primeira vêz.
Um dos GPS's chama-se o GPS da consciência e o outro o do coração. A tecla eu falo mais tarde. Os dois equipamentos vem já configurados de fábrica. O da consciência vem com bons pensamentos, uma ligação com o Superior e tudo mais relacionado com a boa prática de um filho de Deus, o do coração vem com bons sentimentos, amor ao próximo, instinto cristão, e tudo mais relacionado ao positivo. Agora de posse do nosso fusca próprio, podemos andar por todo o planeta com a liberdade que alguns chamam de "livre arbítrio", escolhendo os caminhos que queremos entrar e sair. A configuração dos nossos GPS's, agora é com a gente e começamos a carregar esses equipamentos com o que queremos. Todos os sentimentos serão gravados imediatamente no do coração e nossos atos e pensamentos no da consciência. Além disso tudo ainda tem o combustível que utilizaremos em nossos veículos.
Acontece que chegará um dia em que precisaremos retornar para a garagem central que é a casa de Deus. O retorno é inevitável. Quando chegarmos lá, já não levaremos nosso fusquinha, pois o mesmo ficará literalmente na terra, e retornaremos para a garagem apenas com os chip's dos GPS's com toda a memória gravada neles. Então Deus avaliará nossos cartões de memória e dependendo do que carregamos nesses cartões, receberemos uma nova oportunidade de encarnação. Dependendo do uso do fusquinha, poderemos agora receber um outro carro com mais conforto, um carro maior como um Gol ou mesmo um utilitário, com ar condicionado, ou direção hidráulica, vidros elétricos, bancos reclináveis para diminuir os solavancos das estradas dentre outros acessórios que poderão abrandar a nova experiência. Outros precisarão voltar de fusca e mais um tanto de motoristas que não aprenderam a dirigir bem seu fusquinha, provavelmente perderão esse direito e andarão à pé.
Olhando a coisa por esse ângulo conseguimos entender porque umas pessoas tem mais facilidades que outras, porque umas tem o toque de Midas e em tudo o que tocam vira ouro enquanto outras destroem fortunas, porque existem tantas famílias infelizes enquanto outras brilham e tantas outras diferenças entre nós são tão claras. Tem horas que parece que estamos andando de charretes enquanto outros andam de carros importados, numa visão espiritual, é claro.
Então nos conformamos que o que temos é única e exclusivamente fruto de minha própria colheita e não posso questionar a Deus pelo que recebo e sim questionar-me sobre o que venho plantando em meu jardim. Se quero colher laranjas, não adianta plantar abacaxis.
Mas ainda assim, o Superior é tão grandioso em sua bondade que equipa todos os nossos veículos com um opcional de fábrica, até mesmo as charretes e mesmo quem vem a pé possui esse recurso que é a tecla "S". A tecla "S" é a tecla da Salvação e quando a coisa estiver em uma condição em que você já bagunçou toda a programação dos GPS'S e já não consegue mais saber qual o rumo seguir, o que sentir e pensa que não tem mais solução, é só teclar essa tecla que imediatamente restaura-se todas as configurações de fábrica. Volta ao original de fábrica com o direito de reprogramar sua conciência e seu coração. Essa tecla é utilizada quando o arrependimento é sincero e o compromisso de não repetir as coisa feitas erradas, quando há o verdadeiro sentimento de reconhecimento do erro, então a tecla "S" está sendo teclada e o perdão é a reconfiguração do GPS e o recontato com a realidade.
Assim utilizando essa analogia simples e compreensível, fica pra mim mais fácil entender o merecimento e a Justiça de Deus, compreendendo as grandes diferenças que percebemos entre esses filhos do mesmo pai, entendendo que não é ele que dá mais pra um filho do que para o outro e sim cada um colhe em seus jardins o fruto da semente que plantou. Ele apenas dá o campo de plantio e as ferramentas para o cultivo, cabe a cada um de nós arar a terra e cuidar da lavoura.
E você, que carro já está dirigindo?

O que é felicidade?

_        -_ Papai, o que é felicidade?
    _ É estar em paz com Deus e consigo mesmo filhinha. Mas por que você está me perguntando isso?
            _ E alegria, o que é? É a mesma coisa?
            _ Que deu em você heim? Onde você quer chegar?
            _ Heim pai fala pra mim.
            _ Alegria é..... Hãmmm..... Alegria é alegria e felicidade é felicidade. Bem vamos pensar um pouquinho... Alegria é um estado momentâneo, um momento da vida em que a gente, por algum motivo, fica feliz....
            _ Pera aí pai! Se fica feliz é felicidade né?
            _ É, mas é assim que se fala ta? E felicidade é um estado de espírito...
            _ E o que é espírito?
            _ Calma filhinha, ainda estamos falando de felicidade. Felicidade é um conjunto de sentimentos que envolvem a gente de uma maneira que ficamos com uma sensação de leveza.... entende? A felicidade é Divina, algo assim leve, que faz nosso coração ficar em festa. Ta´entendendo?
            _ Tô pai. Mas o que é espírito mesmo?
       _ Você heim.... Me faz cada pergunta. Espírito é espírito. Quando você crescer mais um pouquinho te conto ta?
           _  Ta. Mas crescer quanto? Ou melhor, porque a gente cresce pai? Como é que isso acontece? A gente estica, muda a voz, muda a cara.... como é que é isso?
           _ Por hoje já falamos em alegria e felicidade, ta bom né? Vai dormir meu bem, que amanhã tem aula e você precisa acordar cedo, outra hora a gente conversa mais e eu vou te ensinar mais coisas a respeito do nosso criador. Tem tanta coisa bonita...
            _ Boa noite papai, mas espírito é alma? É a mesma coisa?
            _ Boa noite filha, dorme com os anjos.

Ruim vivo, pior morto!

Hoje acordei pensando o quanto sou feliz em estar vivo. 
Reclamamos da vida, de como as coisas estão pelos olhos da cara, pelo clima instável, pela chuva, pelo sol, pelo vento, pelo calor, pelo frio, pelo governo, pelas dívidas, pelo baixo salário, enfim, por tudo reclamamos.
Naturalmente as pessoas se queixam das coisas do dia-a-dia e por vezes se esquecem da maravilha que é estar vivo e estar vivo com saúde e ainda melhor e se tiver um emprego e com uma família.... reclamar de quê?
Mas não tem jeito não, o povo é de natureza reclamadora mesmo, reclama de tudo, no entanto muitas das vezes não percebe o mínimo das coisas que já conquistou durante sua caminhada aqui pela terra. Não valoriza o nascer do Sol a cada dia, o desabrochar de uma flor, o gorjear de um passarinho, as cores da primavera, a balbúrdia inocente das crianças, a beleza de uma cachoeira, os sentidos do corpo humano, os amigos e tudo mais que presenciamos todos os dias e em raras ocasiões percebemos com os olhos do coração.
Tem gente que reclama tanto que nem imagina o que é estar em um leito de hospital, em uma cela de presídio, num quarto de asilo ou mesmo numa sepultura com sete palmos de terra sobre a lâmina de madeira de seu caixão. Então é melhor estar numa fila de banco do que numa a espera de um órgão para transplante, estar em pé dentro de um coletivo cheio de gente e atrasado para o serviço do que sentado numa cela com vinte ou mais delinquentes, tendo que ouvir o calor das gritarias dos filhos dentro de casa do que o silêncio frio de um quarto de asilo, aguardar a demorada restituição do imposto de renda do que o som das pás de terra sobre sua sepultura. As pessoas reclamam demais.
Como diz o poeta: "Todos querem ir para o céu mas ninguém quer morrer".
Então vamos nos tranqüilizar e agradecer a Deus pelo que temos e se ainda não temos mais é porque não fizemos por onde recebermos.
Sejamos felizes e aproveitemos as maravilhas que a vida nos oferece e tornemos-nos grato pelo nascer de cada dia.
_Que maravilha viver....  

Mais perto de Deus.

São tantas as maneiras que uma pessoa pode encontrar para chegar mais perto de Deus. O sorriso de uma criança com certeza é Deus presente. O abrir de uma flor, o soar das águas de uma cachoeira, o vôo de uma andorinha e outras tantas manifestações Divinas podem mostrar o poder desse Senhor.
         Mas a maneira mais fácil e certa de estarmos perto dele é morrendo, ou para os espiritualistas, desencarnando. E quem quer morrer? Ninguém. Todos querem conhecer seu semblante, mas não querem morrer. Então será que existe outra maneira de chegar mais perto de Deus? Essa é a questão.
         Desde os primórdios da humanidade o ser humano vem buscando um contato maior com o Criador, uma maneira de se aproximar desse ser superior e por mais que tenha procurado nos estudos acadêmicos, escrituras, profecias e até mesmo em alto estado de concentração, ioga dentre tantas outras tentativas, não existe relato incontestável desse contato. Por que o homem é impuro e na Luz só chega à pureza.
         As religiões tem se esforçado para propagar a crença em Deus. Algumas tem tido êxito, outras nem tanto. Muitas delas se perderam de seu foco durante a caminhada e a descrença tomou conta de alguns de seus seguidores. Por outro lado, outros seguimentos religiosos tem se esmerado em conduzir os discípulos para o alto dos céus e assim estar mais próximos do Pai Celestial.
         Estudos mais espirituais têm mostrado que esse link com a Força de Deus é possível e basta apenas uma concentração de esforços no que tange a prática fiel do bem e a constância da firmeza no pensamento de prosseguir no caminho traçado por Jesus, seu filho fiel.
         Quanto mais o homem trabalha pela espiritualidade e procura praticar em sua vida os ensinos superiores, melhor é seu desempenho e progresso, por outro lado, a desvirtualização da prática, o transforma em uma pessoa comum que passará o tempo de sua vida como os outros filhos desse mesmo Deus.
          E o que podemos dizer sobre o amor ao próximo? E o fazer o bem sem olhar a quem? Tão fácil é produzir palavras bonitas que fazem a propaganda de uma pessoa espiritualizada, mas a prática denuncia os verdadeiros demagogos que encontram nas escrituras um meio de levar vantagens sobre os menos instruídos.
         Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, é o maior legado que Jesus nos trouxe e o bom praticante deste ensino tem a colheita de bons frutos em sua vida e a certeza de ser uma pessoa feliz e querida é garantida. Não é a coisa mais fácil de se praticar porém não é a mais difícil, o que precisamos é dar o start em nossa vida nesse sentido e mudar pra melhor. A quebra de paradigmas é tradicionalmente na vida de uma pessoa, algo que precisa de empenho e firmeza no propósito e uma prática reservada à poucos. Aqueles que conseguem manter em sua mente essa meta, com certeza tende a ser vitorioso.
         Tantas são as maneiras de se aproximar de nosso Pai Superior, basta buscarmos ser pessoas cada vez melhores e perceber na simplicidade das coisas o seu poder, sua manifestação singular e despretensiosa.
         Deus é o nosso criador e só estamos aqui por causa de sua determinação, façamos o melhor que pudermos para sermos sempre filhos obedientes aos seus desígnios. Assim estando mais próximos Dele. Vivos.